quinta-feira, 17 de março de 2022

(Artigo de Reflexão) Da Morte à Ressurreição

Etimologicamente, a palavra “morte” vem do Latim mors que, por sua vez, derivará do sânscrito mṛtyu. Com efeito, verificamos formas semelhantes em várias línguas de génese Indo-europeia, a partir da raiz “mor”: arménio (meranim), lituano (mirtis), irlandês antigo (marb), anglo-saxão (morb), entre outros casos. Por seu turno, no hebraico usa-se o vocábulo mavet e a raiz mwt. Parece haver uma óbvia linha comum.

No espaço da Cultura Ocidental, a mitologia grega apresenta Thánatos como Deus ou personificação da Morte, tendo como mãe a Noite, Nix, e irmão gémeo o Sono ou Sonho, Hypnos. Estas deidades e genealogia são vertidas para o panteão romano, respectivamente, como Mors, Nox e Somnos. Também conhecido com Leto, na Mitologia e Literatura Romanas Mors é frequentemente associado a Orco, Dis Pater, Marte e Plutão, deidades da Vingança e Justiça, Riqueza, Guerra e Mundo dos Mortos. Se quisermos virar a Oriente, de entre as inúmeras representações alegóricas da morte, Mara talvez seja a mais próxima de Mors.

Entre os romanos, Mors seria mais temido que adorado. Para gregos, Thánatos teria um carácter libertador. Extrapolando, vejamos o termo “eutanásia” que supõe “boa morte”. Se tivermos em conta que Roma tinha um pendor bélico e Grécia se orientava à Filosofia, não espanta. Comum às duas Culturas, versões Orientais e não só, é a ideia de morte como um estado de sono. Mortos, estaríamos como que dormindo, sonhando ao sabor do inconsciente que colectámos ou não clarificámos, durante a vida (ou vidas). Por esta razão, por exemplo, na Tradição Tibetana Budista dá-se profundo valor ao chamado Yoga dos Sonhos. Este consiste em, todas as noites, treinar a atenção ao momento presente, de maneira a entrar no sono com lucidez. Pressupõe-se que não haja grande diferença entre adormecer e morrer, pelo que a pessoa capaz de adormecer conscientemente, terá também adquirido a capacidade de morrer conscientemente. Por conseguinte, poderá condicionar a reencarnação, prosseguir numa existência espiritual ou Libertar-se. Este Yoga Onírico ocorre em variegadas Tradições Espirituais, enquanto técnica mestra.

No caminho Espiritual, genericamente, viver consciente da iminência da morte é uma das principais ou a principal ferramenta contemplativa. Discutiríamos violentamente com alguém se soubéssemos que no dia seguinte iria adoecer, sofrer e falecer? Deixaríamos por declarar um amor se soubéssemos a data da nossa partida? Escolheríamos uma profissão por interesses materialistas, em detrimento da realização pessoal-espiritual, se descobríssemos que em vez de 80 vamos viver “só” 40 anos? Ficaríamos na prisão do apego às ideias e sentimentos, lutando para as preservar e impor, se condescendêssemos que em última análise são conceitos de validade circunstancial e transitória? Certamente, se não agíssemos olvidados da nossa “mortalidade”, seríamos criaturas mais leves, virtualmente “imortais”. Psicologicamente não se pode matar aquilo que não morre. E como não se morre? Para começar, assumindo a incontornável vulnerabilidade, ou seja, que qualquer instante pode ser o último, nosso ou de outrem, com ou sem aviso! Isso implica um tremendo golpe no ego, senão a sua aniquilação!

Com tanto de compreensível como de incompreensível, continuamos a conceber a morte como o pior dos cenários. Se passamento e luto de um querido não são fáceis, até de um desconhecido, olhando acima do nosso auto-conceito veríamos as coisas de modo distinto. Não será a morte o adubo da vida!? A formação de um solo fértil é paradigmática disso! De uma semente gera-se a planta pioneira. Essa medra gerações que vão sucessivamente perecendo, acumulando húmus da matéria decomposta. Com o tempo formam-se camadas de terra, fresca, húmida! O resultado: de um solo outrora árido, surge um terreno abundoso! Da esterilidade de um páramo à abundança de uma floresta! Em suma, o que está vivo, literalmente depende de algo ou alguém que morreu. Assim se processa a natural regeneração. Tudo o que vemos ao redor, ervas, arbustos, árvores, bichos humanos e não-humanos, nasceu do “sacrifício” dos seus antecessores e o preço a ser pago, vamos chamar-lhe assim, é “sacrificar” a sua existência momentânea para gerar nova vida. Ademais, será realmente um “sacrifício? Não será um dever, honra ou dádiva, retribuir o milagre da vida com nossa própria vida? Onde estaríamos, se os antepassados não tivessem sucumbido por nós, pela Civilização? Perguntamo-nos, a péssima relação que a maioria das culturas actuais mantém com o decaimento e a morte, estará na base do colapso do tecido social? De facto, parece haver a tendência vigente para se apontar e recriminar os erros do passado, ao invés de os enquadrar num contexto e a par de todas as coisas boas que também foram feitas! As vagas de egolatria e falta de empatia, claramente não serão compatíveis com a inevitabilidade da morte, tampouco com uma vivência salutar e madura da mesma. Triste talvez não seja morrer. Triste, talvez seja morrer sem ter legado algo, sem ter gerado “manta-morta” para os que estão e os vindouros.

Talvez morte e vida simplesmente não se possam conceber separadamente, como se fossem um só conceito que nós, confinados ao egoísmo, partimos em dois. Abraçar a morte, muito provavelmente, levará a abraçar a vida, desfrutando plenamente desta sem temer aquela.

A sublimação da relação com a mortalidade será a derradeira prova espiritual: figurativamente, quando falamos da morte do ego; literalmente, quando experienciamos a morte própria ou de próximos. Consta que uma menina, com o si e o aparelho psíquico ainda por cristalizar, lamentava a morte do gato. Triste mas com admirável desapego, terá concluído que essa é uma das aprendizagens que os bichos-de-companhia nos vêm ensinar: por durarem menos, ensinam a prepararmos os nossos corações para a perda dos que duram mais. Um exemplo enternecedor da dita sabedoria das crianças!

Ao final da jornada, quando se nos anoitecer, quem devemos escolher!? Mors, cruel e maquinal, ou Thanatos, benévolo e ciente? Para ressuscitar, seja como for, com certeza será necessário saber morrer em paz e consciência. Seja nas ininterruptas mortes psicológicas que o simples facto de estarmos vivos acarrecta, seja na “derradeira” morte fisiológica, fica então o voto: ressuscitemos sempre, abnegada e conscientemente.

 

Joel Machado


(Cabeço do Calvário - Sintra | Foto: Joel Machado)


#joelmachado #yogaemistica #educarparaaespiritualidade #yoga #meditação #contemplação #espiritualidade #ciênciacontemplativa #yodadossonhos #budismotibetano #mitologia #morte #sono #thanatos #hypnos #mors #somnos #ego #egoismo #sublimação #ressurreição #páscoa

quarta-feira, 16 de março de 2022

(Yogāsana) Sequência Global I – Elevada Intensidade

Invocação e Saṅkalpa

Siddhāsana


Preparação I

Aquecimento muscular e articular [5-10m]

Preparação II

Sūrya Namaskāra [3 ciclos | respiração livre 5x em Adho Mukha Śvānāsana]






Desenvolvimento – Posturas de Pé

=> Tadāsana
    => Vṛkṣāsana [1m]
    => Utkaṭāsana [10-20s]



=> Utthita Hasta Pādāsana (Postura Base e Intercalar)
    => Utthita Trikoṇāsana [1m]
    => Parivṛtta Trikoṇāsana [1m]
    => Vīrabhadrāsana II [1m]
    => Utthita Pārśvakoṇāsana [1m]
    => Parivṛtta Pārśvakoṇāsana [1m]
    => Vimānāsana [1m]
    => Vīrabhadrāsana I [1m]
    => Pārśvottānāsana [1m]
    => Prasārita Pādottānāsana [1m]






Invertida I

Śīrṣāsana [1-3m]


Desenvolvimento – Extensões da Coluna

Śalabhāsana [15-30s]
Makarāsana [15-30s]
Ardha Dhanurāsana [15s]
Ūrdvha Dhanurāsana [15s]


Paryankāsana (c/ suporte – bloco na linha das omoplatas) [1-3m]
Paryankāsana (c/ suporte – bloco entre as omoplatas) [1-3m]


Recobro I

Supta Baddha Koṇāsana (c/ suporte – cinto) [3-5m]
 
 
Desenvolvimento (Posturas abdominais)

=> Daṇḍāsana (Postura Base e Intercalar)
    => Paripūrṇa Nāvāsana [30s-1m]
     => Ardha Nāvāsana [30s-1m]
 
 

 
 
Desenvolvimento – Flexões da Coluna

=> Daṇḍāsana (Postura Base e Intercalar
    => Jānu Śīrṣāsana [1-3m]
    => Paschimottānāsana [1-3m]
    => Marīchyāsana III [1-3m]
    => Marīchyāsana I [1-3m]

Invertida II

Halāsana [1-2m]
Sālamba Sarvāngāsana [3-5m]



Recobro II

Supta Pādānguṣṭhāsana I [1m]
Supta Pādānguṣṭhāsana II [1m]
Supta Pādānguṣṭhāsana III [1m]


Relaxamento final

Śavāsana [5m]


Notas:
  • Assumir como foco meditativo um ou três aspectos coordenados: (1) a respiração no seu natural (ujjāyī); (2) o alinhamento postural; e (3) a coordenação entre os movimentos e o discorrer da respiração.
  • Duração programada de 1h30 a 2h.


Advertências:
  • Esta prática requer preparação física e conhecimento aprofundado de Yogāsana, pelo que requer o acompanhamento de um professor consciente.

Forografia: @pedrovillafoto | https://www.pedrovillafoto.pt/

terça-feira, 15 de março de 2022

(Artigo de Reflexão) ātman e ahiṃsā | Si-Transcendental e pacifismo

Ātman será um conceito matricial e motriz da prática de Yoga. Extrapolando, qualquer Ciência Contemplativa partirá do pressuposto de que se deve transcender a contínua identificação com a identidade pessoal para passar a uma “identidade” holística. Paradoxalmente isto trará inúmeros benefícios pessoais e, acima de tudo, trará bendições colectivas.

Quando mergulhamos no conceito de ātman ou essência primordial, entramos no pressuposto de que, não havendo fronteiras reais, entre o que quer que seja, então tudo está ligado e correlacionado. Lembremos a Teoria do Caos e o célebre Efeito Borboleta: o que acontece aqui repercute-se ali, espacialmente, temporalmente, e vice-versa. Trocado em miúdos, qualquer atitude individual de dada pessoa vai ter influência (não-negligenciável) no todo, mesmo que assim não pareça.

É desta noção de totalidade em que todos são o Mesmo, repercutida na interdependência, que surge um dos principais pressupostos do Yoga e de qualquer Ciência Contemplativa: o “pacifismo” ou “não-violência”, em sânscrito, ahiṃsā. No fundo, a atitude pacifista em relação ao outro e ao ambiente são um corolário da noção de ātman, pois se eu, o animal, a planta e o mineral somos Um Só, qualquer acto de agressão contra esses será um acto de agressão contra mim. Roubar um irmão numa partilha de herança é, primeiramente, “roubar” a ātman, logo, roubar a mim. Agredir um cão porque ladra continuamente é, primeiramente, “agredir” ātman, logo, agredir a mim. Abater um bosque de carvalhos para lucrar de modo fácil e imediato é, primeiramente, “abater ātman, logo, abater a mim. Rasgar uma mina de lítio para mero proveito pessoal e dos (considerados) meus é, primeiramente, “rasgar” ātman, logo, rasgar a mim. Ou seja, observando a qualidade da nossa relação com entes vivos e não-vivos, percebemos o quão sintonizados estaremos, ou não, com o Todo. Simplificando ou caricaturando ainda mais a exemplificação, imaginemos uma psicopatologia em que a pessoa não reconhece o seu corpo físico como um todo, pelo que, considera por exemplo uma mão como algo desassociado do resto. Se começar a descurar ou até a ferir a mão, isso trará consequências para o corpo todo. Com efeito, se infectar ou gangrenar poderá ocorrer septicemia a partir da mão, culminando na morte do corpo todo.

Sendo um pressuposto ético, ahiṃsā assenta na racionalidade. Talvez se sinta, contemplativamente. Porém, também poderá ser percebido logicamente. Facilmente se entenderá que agredindo uma pessoa, seja como for, ela quererá retaliar, e mesmo que não encontremos esse desfecho à primeira ou à segunda, invariavelmente ele virá. Portanto, havendo um mínimo de lucidez pessoal e colectiva, o que parece não acontecer na generalidade, rapidamente se entende que a agressão é um comportamento que trará consequências negativas para todas as partes envolvidas (e, a posteriori, aparentemente não envolvidas). Analogamente, não deve ser imposto, antes, ahiṃsā deverá vir na consequência de um entendimento. Se a pessoa, intelectualmente ou contemplativamente abeirar a experiência de totalidade inerente ao conceito de ātman, então, naturalmente assumirá o pacifismo. Talvez por isso, muitas pessoas que passam por experiências de morte aparente se tornam mais gregárias, menos egoístas, devotando a “segunda” parte das suas vidas a causas altruístas. O exemplo de David Milarch, norte-americano que depois de ter passado pela morte na sequência de falência renal e, ainda assim, ter voltado ao “mundo dos vivos”, parece ilustrativo. Tendo experienciado a interdependência que nos ligará a todos, selou o voto solene de salvar as sequóias gigantes, actualmente ameaçadas, agindo concreta e activamente nesse sentido.

Ora, diríamos que David Milarch incorporará uma verdadeira prática contemplativa. Praticar Yoga sem ter em consideração estes pressupostos de interdependência será, no mínimo, um contrassenso. Para quem advoga karma e ainda assim, insiste em manter atitudes violentas, será uma espécie de tiro no pé.

 

Joel Machado


(Sinalização no Parque da Pena - Sintra | Joel Machado)

 

#joelmachado #yogaemistica #yoga #meditação #contemplação #devoção #espiritualidade #ciênciacontemplativa #educarparaaespiritualidade #atman

segunda-feira, 14 de março de 2022

(Marcela Manso) Yoga, Consciência e Ética

Desde tempos imemoriais a dúvida sobre o propósito da existência e a busca por algo mais está presente na mente humana. Vários tentaram responder a estas questões, várias técnicas foram desenvolvidas para aliviar o sofrimento humano, algumas delas podem ser consideradas radicais e até inapropriadas para a sobrevivência a longo prazo.

Nas várias tradições espirituais encontramos pontos em comum, com outros nomes, mas no fundo com o mesmo objectivo: viver bem em primeiro lugar consigo mesmo, em segundo com o outro ou com a sociedade em que se insere, e somente depois de se compreender a pertença a um todo, a um ecossistema indivisível e interdependente, é que se pode atingir a libertação, mokṣa, céu, nirvāṇa, entre outros nomes, consoante as tradições.

Actualmente vivemos numa sociedade que dá primazia ao ego. No sistema capitalista no qual estamos inseridos, facilmente caímos na ilusão de que o consumo nos vai aliviar das aflições que nos assolam a mente ou o coração. A própria publicidade é baseada nesta ideia falsa de felicidade pelo consumo, em que se “trabalha” os desejos das pessoas de uma forma ilusória, dando a entender que o consumo do produto ou da experiência “x” nos vão preencher o vazio que nos oprime. Enchemos as casas de bens materiais e como isso não nos traz qualquer alívio, ligamo-nos a redes sociais, em que a sociabilização de facto termina por ser precária e ilusória na maior parte das vezes, como não chega, ainda conseguimos encher a cabeça de barulho, tudo para não escutar as penas que nos afligem. Não há uma confrontação com a morte e a doença como sendo parte inerente da vida. Na própria prática de yogāsana moderno “vende-se” a ilusão da eterna juventude, há inclusive um culto do corpo e um desprezo pela velhice e decadência do corpo, natural na vida humana, assim como se “vende” a eterna saúde através desta prática. Na realidade, apesar desta prática ter os seus benefícios, muitos dos āsana-s praticados não têm qualquer sentido nem nenhum benefício cientificamente comprovado (ou sequer empiricamente), e sequer se baseiam em qualquer tradição ancestral. A longo prazo é frequente aparecerem lesões consequentes das práticas mais absurdas de yogāsana. E é frequente as pessoas associarem o yoga a este manancial de loucura, achando que a partir de certa idade não o podem praticar. Ora o yogāsana é uma parte ínfima da prática de yoga. Sem a atenção à respiração, não há yoga, sem a atenção aos pensamentos e aos actos também não. A parte mais importante da prática de yoga é a ética. A auto-observação diária constante é o que nos leva realmente ao estado de yoga. Observar pensamentos e acções é essencial, tentando os compreender e até onde está o ego a deturpar a realidade, colocando-nos numa atitude de sobrevivência, em que o “eu” é a única coisa que importa, sendo assim justificável atropelar tudo e todos para atingir um porto seguro ilusório, que apenas nos traz mais aflição e desconfiança, entrando-se na paranóia de que estamos a ser vítimas de alguma sabotagem de um inimigo inexistente, sempre negando a nossa responsabilização pelos erros e falhas cometidos, tal como crianças imaturas de 5 anos. Admitir os erros e assumir a responsabilização dos próprios actos e suas consequências é o que nos leva da infância à maturidade. Sem esta maturidade também não é possível atingir um estado de yoga.

Apesar de vários textos falarem que a prática de yoga leva à imortalidade, enquanto não se domina a parte da ética, a prática de yoga nos ajuda a aceitar a nossa morte e decadência como sendo parte da vida. O yoga em todos os seus domínios não nos leva apenas à saúde, mas leva-nos a aceitar a doença e a vivê-la em desapego, o que é mais importante do que o que muitos instrutores de yoga tentam impingir da saúde e juventude eterna, até porque a parte mental é mais importante que a física. Sabe-se que se um sujeito imaginar que está fazendo um determinado exercício físico pode obter resultados próximos de alguém que está de facto a fazê-lo. Assim consideramos que o incentivo ao silêncio e à prática de meditação deveria ser uma prioridade no ensino de yoga e não o oposto, como acontece em alguns casos. É natural que num mundo capitalista, em que o yoga é uma indústria que move milhões, falar de filosofia e ética não seja algo atraente, mas sem isso continuaremos a viver num mundo em que os kleśa (aflições mentais), as aflições da vida, nos fazem permanecer neste ciclo de sofrimento, afastando-nos do nosso potencial sādhana (prática espiritual), ou deixando-nos desviar deste sādhana pelos vários antarāya (obstáculos à prática espiritual) em que tropeçamos.

Em conclusão, viver em consciência e desapegando-nos das ideias que temos de nós e do todo, quebrando os padrões familiares e mentais, é a forma de atingirmos algo mais que esta vida de sofrimento e morte.

 

Marcela Manso

https://www.instagram.com/marcela__manso/

https://www.facebook.com/MarcelaCManso

https://www.behance.net/Marcela

 

(vīrasiddhāsana , Joel Machado)

 

#marcelamanso #yogaemistica #educarparaaespiritualidade #yoga #consciência #ética #espiritualidade #tradiçãoespiritual #meditação #contemplação #yogaportugal #yogabrasil

sábado, 12 de março de 2022

(Artigo de Reflexão) saṅgha | संघ | comunidade

Historicamente, a palavra saṅgha foi usada para significar uma “assembleia governativa”, em república ou monarquia. Porém, a sua denotação mais comum tornou-se outra. Sobretudo em círculos budistas, saṅgha, do sânscrito, define "comunidade". Num sentido mais  estreito, refere-se a um grupo de pessoas que abraçam, praticam e professam os preceitos e práticas de determinada Ciência Contemplativa. Daí também se encontrar em jainas e sikhs, por exemplo, podendo ser uma comunidade monástica, laica ou mista.

Latamente, diríamos que saṅgha referir-se-á a algo maior: a família, a etnia, o bairro, a pátria, a continentalidade, a população global, as espécies animais e vegetais, ecossistemas, tudo será saṅgha, tudo remeterá para saṅgha. Em última análise, à medida que avançamos na escala de grupos, dissolvemos as barreiras que delimitam territórios, chegando a “agregados” cada vez maiores, a uma só saṅgha. Subjacente a este alargamento do conceito, além da mera ideia de comunidade formal-espiritual, está a noção de interdependência, isto é, que tudo se interliga de modo inexorável.

Cremos hoje que uma floresta se manifesta mais como um todo do que como um conjunto de árvores isoladas: as raízes tendem a interconectar-se, estabelecer “alianças” com fungos e outros seres, formando uma “entidade”. No mundo animal, é consensual que a sobrevivência de uma espécie depende da continuidade de outras, seja em termos de consórcios como simbioses, mas também nas relações presa-predador. A chave reside no equilíbrio das relações cooperativas ou competitivas. Naturalmente, isto verte para o Ser Humano, enquanto ser natural, social e individual.

Naturalmente, o Ser Humano depende do mundo ao redor. O ar deve estar limpo, as águas puras, as fontes de subsistência salutares e comedidamente exploradas. Não se garantindo isso, compromete-se a manutenção da espécie, algo que se afigura um problema actual. Socialmente, a dependência é interna, ou seja, os elementos que constituem o grupo devem articular-se em harmonia, de modo a fomentarem o sucesso mútuo, e não o oposto, sob pena de aumentar comportamentos agressivos e déspotas em detrimento de parceria e altruísmo. Na sociedade, na cultura, não haverá dispensáveis, somente indispensáveis: se os médicos deixarem de trabalhar, ninguém terá acesso a cuidados de saúde; por outro lado, se os funcionários de saneamento público se recusarem a trabalhar, aos médicos não valerá a sua ciência face à proliferação desbragada de sujeira e pragas. Não haverá melhores ou piores! Individualmente, a dependência ocorrerá a um nível íntimo. Com efeito, considerar o Ser Humano um corpo exteriormente delimitado, já será discutível, alargar isso ao interior, mais ainda. Então, o que dizer da quantidade de bactérias que vivem em sociedade com qualquer pessoa? A microbiota intestinal? No fundo, não acabará o ser humano por ser uma “colónia”, bem ou mal sucedida, consoante se aproxime ou afaste de um estado de harmonia interior? Em suma, o corpo humano será uma comunidade inserida numa comunidade, e este a noutra, por aí fora, até haver uma só – aqui se vendo a potencial futilidade e perigo das ideologias identitárias.

Por detrás disto, estará a interdependência, que por sua vez será um dos pilares de qualquer Ciência Contemplativa: o reconhecimento de que dependemos uns dos outros, não existindo barreiras espaciais ou sequer temporais: não colhemos hoje o que foi semeado pelos antepassados? Não colherão as gerações vindouras o que plantarmos agora? Parece efectivamente estar tudo interligado! É por esta razão, e outras, que reflectir e meditar sobre a interdependência é um exercício fundamental das práticas espirituais. Abrirá as portas a uma percepção ampla, caducando o foco meramente individual, que fatalmente recai em egoísmo ou narcisismo. Porque não experimentar?

 


#joelmachado #yogaemistica #educarparaaespiritualidade #yoga #sangha #comunidadeespiritual #comunidade #sociedade #cultura #ecossistema #identidade #interdependência #contemplação #budismo #meditação #artigo #reflexão #yogaportugal #yogabrasil