sábado, 12 de março de 2022

(Artigo de Reflexão) saṅgha | संघ | comunidade

Historicamente, a palavra saṅgha foi usada para significar uma “assembleia governativa”, em república ou monarquia. Porém, a sua denotação mais comum tornou-se outra. Sobretudo em círculos budistas, saṅgha, do sânscrito, define "comunidade". Num sentido mais  estreito, refere-se a um grupo de pessoas que abraçam, praticam e professam os preceitos e práticas de determinada Ciência Contemplativa. Daí também se encontrar em jainas e sikhs, por exemplo, podendo ser uma comunidade monástica, laica ou mista.

Latamente, diríamos que saṅgha referir-se-á a algo maior: a família, a etnia, o bairro, a pátria, a continentalidade, a população global, as espécies animais e vegetais, ecossistemas, tudo será saṅgha, tudo remeterá para saṅgha. Em última análise, à medida que avançamos na escala de grupos, dissolvemos as barreiras que delimitam territórios, chegando a “agregados” cada vez maiores, a uma só saṅgha. Subjacente a este alargamento do conceito, além da mera ideia de comunidade formal-espiritual, está a noção de interdependência, isto é, que tudo se interliga de modo inexorável.

Cremos hoje que uma floresta se manifesta mais como um todo do que como um conjunto de árvores isoladas: as raízes tendem a interconectar-se, estabelecer “alianças” com fungos e outros seres, formando uma “entidade”. No mundo animal, é consensual que a sobrevivência de uma espécie depende da continuidade de outras, seja em termos de consórcios como simbioses, mas também nas relações presa-predador. A chave reside no equilíbrio das relações cooperativas ou competitivas. Naturalmente, isto verte para o Ser Humano, enquanto ser natural, social e individual.

Naturalmente, o Ser Humano depende do mundo ao redor. O ar deve estar limpo, as águas puras, as fontes de subsistência salutares e comedidamente exploradas. Não se garantindo isso, compromete-se a manutenção da espécie, algo que se afigura um problema actual. Socialmente, a dependência é interna, ou seja, os elementos que constituem o grupo devem articular-se em harmonia, de modo a fomentarem o sucesso mútuo, e não o oposto, sob pena de aumentar comportamentos agressivos e déspotas em detrimento de parceria e altruísmo. Na sociedade, na cultura, não haverá dispensáveis, somente indispensáveis: se os médicos deixarem de trabalhar, ninguém terá acesso a cuidados de saúde; por outro lado, se os funcionários de saneamento público se recusarem a trabalhar, aos médicos não valerá a sua ciência face à proliferação desbragada de sujeira e pragas. Não haverá melhores ou piores! Individualmente, a dependência ocorrerá a um nível íntimo. Com efeito, considerar o Ser Humano um corpo exteriormente delimitado, já será discutível, alargar isso ao interior, mais ainda. Então, o que dizer da quantidade de bactérias que vivem em sociedade com qualquer pessoa? A microbiota intestinal? No fundo, não acabará o ser humano por ser uma “colónia”, bem ou mal sucedida, consoante se aproxime ou afaste de um estado de harmonia interior? Em suma, o corpo humano será uma comunidade inserida numa comunidade, e este a noutra, por aí fora, até haver uma só – aqui se vendo a potencial futilidade e perigo das ideologias identitárias.

Por detrás disto, estará a interdependência, que por sua vez será um dos pilares de qualquer Ciência Contemplativa: o reconhecimento de que dependemos uns dos outros, não existindo barreiras espaciais ou sequer temporais: não colhemos hoje o que foi semeado pelos antepassados? Não colherão as gerações vindouras o que plantarmos agora? Parece efectivamente estar tudo interligado! É por esta razão, e outras, que reflectir e meditar sobre a interdependência é um exercício fundamental das práticas espirituais. Abrirá as portas a uma percepção ampla, caducando o foco meramente individual, que fatalmente recai em egoísmo ou narcisismo. Porque não experimentar?

 


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sexta-feira, 11 de março de 2022

(Prāṇāyāma) Sequência Preparatória Deitada

Invocação e Saṅkalpa
 
=> Vajrāsana
     •    Com suporte: placas, blocos ou almofada-de-assento
     •    Meditação [1-5m]
 
 
Preparação I
 
=> Adho Mukha Śvānāsana => Uttānāsana => Adho Mukha Śvānāsana
=> Adho Mukha Vīrāsana => Pārśva Adho Mukha Vīrāsana (Esq. e Dir.)
=> Adho Mukha Vīrāsana => Parivṛtta Adho Mukha Vīrāsana (Esq. e Dir.)
     •    Com suporte: cadeira
     •    Ujjāyī 1: Observação da Respiração não-condicionada em permanência nas posturas [1m a 3m]
 

  




















Execução - Prāṇāyāma em Postura Deitada 
 
=> Śavāsana
    •    Com suporte: almofada-dorsal e cobertor /ou/ bolster e cobertor
    •    Postura deitada com ligeira extensão da coluna dorsal e/ou lombar
    •    Ujjāyī 1: Observação da Respiração não-condicionada [1m a 5m]
    •    Ujjāyī 2: Observação da Expiração condicionada (a cada 3º ou 5º ciclo respiratório) [1m a 5m]
    •    Ujjāyī 3: Observação da Inspiração condicionada (a cada 3º ou 5º ciclo respiratório) [1m a 5m]
    •    Ujjāyī 4: Observação da Respiração condicionada (a cada 3º ou 5º ciclo respiratório) [1m a 5m]
 

 
 
 
Relaxamento Final
 
=> Śavāsana
     •    Com suportes: almofada e tapa-olhos
     •    Ujjāyī 1: Observação da Respiração não-condicionada [5-10m]
 


Evocação e Saṅkalpa
 
=> Vajrāsana
     •    Com suporte: placas, blocos ou almofada-de-assento
     •    Meditação [1-5m]
 

 
 
Notas:
    •   Duração programada de 30m a 1h.
 
Advertências:
   •    Esta prática requer preparação mínima, devendo ser sempre monitorizada por um professor responsável 


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quinta-feira, 10 de março de 2022

(Artigo de Opinião) Yoga: Psicologia ou Soteriologia?

Podemos definir o Yoga como uma Ciência Contemplativa. Portanto, um corpo formal de pressupostos teóricos e práticas circunscritas que visam um objectivo soteriológico. Surge a questão: em que consiste uma soteriologia? Ora, a palavra compõe-se de duas raízes gregas: soterios (σωτήριος), "salvação", e logos (λόγος), "palavra" ou "princípio". Soteriologia define assim o estudo da salvação ou libertação humana. Cada Ciência Contemplativa, bem como as Religiões, propõem um esquema particular para se atingir a dita salvação. Normalmente, algumas privilegiam o relacionamento “fusional” do Ser Humano com Deus, num pendor místico, outras investem no refinamento do conhecimento humano como veículo de salvação, num pendor mais gnosiológico. De um modo ou de outro, o objectivo bem como o itinerário a percorrer rumo ao mesmo são atinentes a um tronco-comum. Outro aspecto transversal é que antes de se assumir por inteiro a agenda soteriológica, na maioria dos casos, assume-se preliminar ou preparatoriamente uma agenda terapêutica. Por essa razão se tem especulado até que ponto o Yoga não constituirá também uma psicologia.

Ora, a discussão ao redor do enquadramento do Yoga como uma psicologia, uma soteriologia ou ambos, é justamente um dos temas do livro Yoga, Da Psicologia à Soteriologia, O Tronco-comum de uma Ciência Contemplativa. Nesse trabalho admite-se que o Yoga poderá ter dois enquadramentos: um inicial, com uma tonalidade terapêutica; outro posterior, essencialmente soteriológico.

Erigindo-se a partir de três dimensões fundadoras, iniciática, teórica e prática, numa fase inicial o Yoga teria uma finalidade terapêutica, à semelhança de uma psicologia. Isto teria a ver com o facto da dimensão teórica do Yoga poder ser microscópica ou individual. Nesse particular, os desequilíbrios “individuais” do sujeito são configurados dento dos esquemas teóricos próprios das Tradições do Yoga em geral e subsequentemente abordados mediante meios e práticas específicas: passar de uma dieta inconsciente para outra consciente; burilar a personalidade com base na Ética e Disciplina pessoal, no sentido de mitigar a preponderância psíquica do ego; operar uma purificação pisco-física através de técnicas concretas; adquirir preparação física e cardiovascular; corrigir desequilíbrios de prāṇa ou energia-vital, através da modulação da respiração; entre outros aspectos.

Numa segunda fase, o Yoga será uma soteriologia, ou seja, visa a transição de uma condição humana, por assim dizer, para outra supra-humana. Tal terá o seu enquadramento na dimensão teórica macroscópica ou universal do Yoga. Esta assume, em geral de acordo com uma metafísica definida, que o yogin vive na ilusão de “ser” um corpo individual quando, ultimamente, “É” (ou faz parte de) um Corpo Universal, indiviso. Numa perspectiva teleológica, este Corpo Unificado poderá ser equiparado à ideia de Deus. Haverá portanto um equívoco existencial, que deve ser solucionado. A não resolução desse equívoco é a responsável pela perpetuação dos problemas mundanos e existenciais da pessoa. Apesar das metafísicas variarem, há uma leitura genérica praticamente transversal deste problema de base: (1) o sujeito vive num estado de Ilusão Existencial (māyā); (2) isso gera sofrimento (duḥkha); (3) por sua vez, esse é retroalimentado pela causação (karma) derivada do estado fundamental de ignorância em que vive o sujeito; o corolário é a perpetuação do ciclo morte-renascimento (punarjanma e saṃsāra). Tal como na primeira fase, também nesta há uma componente técnica fornecida pelo Yoga como veículo de resolução do problema. A par das outras anteriormente mencionadas, lança-se mão de um estudo aprofundado da estrutura da mente que visa conhecê-la ao ponto de, por via meditativa, “escapar” do seu condicionamento de base: a identificação continua com o ego, para assumir uma “identidade” Universal, em rigor, uma não-identidade.

Em suma, quando assume um fim terapêutico, o Yoga pode de algum modo ser comparado a uma psicologia. Com as devidas ressalvas, teria alguns pontos de intersecção com vertentes como a Psicanálise de Freud, a Psicologia Analítica de Jung ou a Psicologia Transpessoal. Porém, não poderia ser igualado à Psicologia, Ciência Humana, principalmente por ter uma relação diferente com a objectividade-subjectvidade da experiência e não usar a metodologia científica.

Apesar do sentido e valor prático que possa ter esta ideia do Yoga contemplar dois momentos, um anterior ou terapêutico e outro posterior ou soteriológico, em essência ambos se misturam. Mormente, não é fácil dissociar o Yoga em que circunstância for da sua natureza soteriológica. Quintessencialmente, dir-se-ia, o Yoga será sempre uma soteriologia porque é esse o seu propósito.

 

Joel Machado

 

(Cakra-s do Corpo Subtil segundo uma "psicologia" do Yoga | Fonte: British Library)


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quarta-feira, 9 de março de 2022

(Artigo de Opinião) Yogaterapia

Yogaterapia é uma designação recente se enquadrada na história milenar do Yoga em si, não se sabendo em rigor com quem e quando terá ocorrido. Fontes apócrifas atribuem a inauguração do termo a Svāmi Kuvalayānanda a meio da primeira metade do século XX. Teria surgido no contexto da sua tentativa em conduzir um estudo sistemático e científico de práticas do Yoga, que levaram à fundação do Kaivalyadhama Health and Yoga Research Center, em Loṇāvaḷā, Índia. Posteriormente, a partir das décadas de 70 e 80, o termo ganha enorme visibilidade com a abordagem terapêutica preconizada pro B.K.S. Iyengar e seus acólitos. Seja como for, dificilmente se conseguirá situar ao certo a origem do cunho Yogaterapia, crendo-se que tenha surgido do encontro da Índia com o Ocidente e posterior proliferação do Yoga nos Estados Unidos e Europa, a partir da metade do século passado.

Como quase tudo no Yoga histórico e actual, a definição de Yogaterapia depende da escola, seita ou sub-cultura em que se enquadra. Não existem por isso uma definição ou formalização unânimes. Resultado da globalização e hibridização cultural do Yoga, numa economia de mercado onde tanta receita gera, é comum encontrarmos inúmeras interpretações daquilo que será a Yogaterapia. A despeito dessa realidade, seria um tremendo “próximo passo” uniformizar tanto quanto possível um conceito e estrutura formal daquilo que será a Yogaterapia, naturalmente enquadrada na ideia de Yoga enquanto Ciência Contemplativa e procurando validação Cientifica Experimental na medida do possível e do sensato.

Por enquanto, poderíamos dizer que genericamente a Yogaterapia, lança mão de uma série de técnicas terapeuticamente enquadradas como: dieta; ética; disciplina; exercício físico e alinhamento postural; gestos diafragmáticos; respiração condicionada; concentração e meditação. Todas estes “instrumentos terapêuticos”, ocorrem fundamentados por um corpo teórico que deriva de experiência contemplativa, subjectiva, e tem sido transmitido por tradição oral e escrita. Portanto, até ver, a maioria não se compadece com um enquadramento cientifica objectivo – contrariando o que o mainstream frequentemente preconiza.

Se nos inspirarmos em Stobbaerts, autor de Reflexão sobre o Yoga, e considerarmos dois níveis de prática de Yoga, um inicial com valência terapêutica e outro posterior com valência soteriológica, então a Yogaterapia corresponderia a esse primeiro nível. Seria então o conjunto de premissas teóricas e práticas específicas, das quais se lançaria mão para agir terapeuticamente sobre o indivíduo. Lembremos que a palavra “terapia” vem do Latim, therapīa, por sua vez trazido do Grego Clássico, therapeia, todas remetendo para a ideia de “curar”, “sarar”, ou as acções de "prestar cuidados médicos” e “tratar determinada doença”. Neste enquadramento o Yoga teria a função de lidar com o mauestar ou dor, física e psicologicamente. Seria uma acção terapêutica mundana para, em seguida e eventualmente, abordar como “terapia” existencial.

Esta visão parece-nos fazer sentido na medida em que actualmente estaremos demasiado entupidos para entráramos a eito no Yoga soteriológico, sendo a Yogaterapia quase um pré-requisito. É frequente carregarmos tantos e tão densos detritos físicos e psicológicos, que só fara sentido entrar em caminhos mais profundos do Yoga depois de limpar minimente a casa. Com efeito, determinadas técnicas do Yoga nem sequer devem ser empregues se não houver essa preparação prévia, sobe risco de serem mais lesivas do que benéficas.

Do mesmo modo, também devem ser respeitados aqueles que pretendem enveredar pelo Yoga sem que queiram abordar questões metafisica sou existências, procurando “apenas” o bem-estar que a prática lhes possa trazer. Sendo irrelevante se fica aquém, na medida em que interessa salvaguardar o respeito próprio. Sem pressas ou indulgências, cada qual com seu caminho e a seu tempo. É por esta razão que muitos professores e terapeutas do Yoga, preconizam a sua prática em íntima associação ao Āyurveda, a medicina tradicional indiana, não enveredando tanto pelas “filosofias” e metafisicas”. A verdade, parece, é que normalmente uma porta abre para a outra…

Em suma, diríamos que o tema da Yogaterapia é de todo interessante e merecedor de uma atenção de Contemplativos e Cientistas. Pois, concatenando o melhor de cada área de conhecimento, de modo honesto e sistematizado, poderia construir-se como um sistema terapêutico assaz válido para os dias de hoje e futuro.

 

Joel Machado

 

(Postura Invertida executada com pendor terapêutico | Foto/Créditos: Joel Machado)

 

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