sexta-feira, 11 de março de 2022
(Prāṇāyāma) Sequência Preparatória Deitada
quinta-feira, 10 de março de 2022
(Artigo de Opinião) Yoga: Psicologia ou Soteriologia?
Podemos definir o Yoga como uma Ciência Contemplativa. Portanto, um corpo formal de pressupostos teóricos e práticas circunscritas que visam um objectivo soteriológico. Surge a questão: em que consiste uma soteriologia? Ora, a palavra compõe-se de duas raízes gregas: soterios (σωτήριος), "salvação", e logos (λόγος), "palavra" ou "princípio". Soteriologia define assim o estudo da salvação ou libertação humana. Cada Ciência Contemplativa, bem como as Religiões, propõem um esquema particular para se atingir a dita salvação. Normalmente, algumas privilegiam o relacionamento “fusional” do Ser Humano com Deus, num pendor místico, outras investem no refinamento do conhecimento humano como veículo de salvação, num pendor mais gnosiológico. De um modo ou de outro, o objectivo bem como o itinerário a percorrer rumo ao mesmo são atinentes a um tronco-comum. Outro aspecto transversal é que antes de se assumir por inteiro a agenda soteriológica, na maioria dos casos, assume-se preliminar ou preparatoriamente uma agenda terapêutica. Por essa razão se tem especulado até que ponto o Yoga não constituirá também uma psicologia.
Ora, a discussão ao redor do enquadramento do Yoga como uma psicologia, uma soteriologia ou ambos, é justamente um dos temas do livro Yoga, Da Psicologia à Soteriologia, O Tronco-comum de uma Ciência Contemplativa. Nesse trabalho admite-se que o Yoga poderá ter dois enquadramentos: um inicial, com uma tonalidade terapêutica; outro posterior, essencialmente soteriológico.
Erigindo-se a partir de três dimensões fundadoras, iniciática, teórica e prática, numa fase inicial o Yoga teria uma finalidade terapêutica, à semelhança de uma psicologia. Isto teria a ver com o facto da dimensão teórica do Yoga poder ser microscópica ou individual. Nesse particular, os desequilíbrios “individuais” do sujeito são configurados dento dos esquemas teóricos próprios das Tradições do Yoga em geral e subsequentemente abordados mediante meios e práticas específicas: passar de uma dieta inconsciente para outra consciente; burilar a personalidade com base na Ética e Disciplina pessoal, no sentido de mitigar a preponderância psíquica do ego; operar uma purificação pisco-física através de técnicas concretas; adquirir preparação física e cardiovascular; corrigir desequilíbrios de prāṇa ou energia-vital, através da modulação da respiração; entre outros aspectos.
Numa segunda fase, o Yoga será uma soteriologia, ou seja, visa a transição de uma condição humana, por assim dizer, para outra supra-humana. Tal terá o seu enquadramento na dimensão teórica macroscópica ou universal do Yoga. Esta assume, em geral de acordo com uma metafísica definida, que o yogin vive na ilusão de “ser” um corpo individual quando, ultimamente, “É” (ou faz parte de) um Corpo Universal, indiviso. Numa perspectiva teleológica, este Corpo Unificado poderá ser equiparado à ideia de Deus. Haverá portanto um equívoco existencial, que deve ser solucionado. A não resolução desse equívoco é a responsável pela perpetuação dos problemas mundanos e existenciais da pessoa. Apesar das metafísicas variarem, há uma leitura genérica praticamente transversal deste problema de base: (1) o sujeito vive num estado de Ilusão Existencial (māyā); (2) isso gera sofrimento (duḥkha); (3) por sua vez, esse é retroalimentado pela causação (karma) derivada do estado fundamental de ignorância em que vive o sujeito; o corolário é a perpetuação do ciclo morte-renascimento (punarjanma e saṃsāra). Tal como na primeira fase, também nesta há uma componente técnica fornecida pelo Yoga como veículo de resolução do problema. A par das outras anteriormente mencionadas, lança-se mão de um estudo aprofundado da estrutura da mente que visa conhecê-la ao ponto de, por via meditativa, “escapar” do seu condicionamento de base: a identificação continua com o ego, para assumir uma “identidade” Universal, em rigor, uma não-identidade.
Em suma, quando assume um fim terapêutico, o Yoga pode de algum modo ser comparado a uma psicologia. Com as devidas ressalvas, teria alguns pontos de intersecção com vertentes como a Psicanálise de Freud, a Psicologia Analítica de Jung ou a Psicologia Transpessoal. Porém, não poderia ser igualado à Psicologia, Ciência Humana, principalmente por ter uma relação diferente com a objectividade-subjectvidade da experiência e não usar a metodologia científica.
Apesar do sentido e valor prático que possa ter esta ideia do Yoga contemplar dois momentos, um anterior ou terapêutico e outro posterior ou soteriológico, em essência ambos se misturam. Mormente, não é fácil dissociar o Yoga em que circunstância for da sua natureza soteriológica. Quintessencialmente, dir-se-ia, o Yoga será sempre uma soteriologia porque é esse o seu propósito.
Joel Machado
(Cakra-s do Corpo Subtil segundo uma "psicologia" do Yoga | Fonte: British Library)
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quarta-feira, 9 de março de 2022
(Artigo de Opinião) Yogaterapia
Yogaterapia é uma designação recente se enquadrada na história milenar do Yoga em si, não se sabendo em rigor com quem e quando terá ocorrido. Fontes apócrifas atribuem a inauguração do termo a Svāmi Kuvalayānanda a meio da primeira metade do século XX. Teria surgido no contexto da sua tentativa em conduzir um estudo sistemático e científico de práticas do Yoga, que levaram à fundação do Kaivalyadhama Health and Yoga Research Center, em Loṇāvaḷā, Índia. Posteriormente, a partir das décadas de 70 e 80, o termo ganha enorme visibilidade com a abordagem terapêutica preconizada pro B.K.S. Iyengar e seus acólitos. Seja como for, dificilmente se conseguirá situar ao certo a origem do cunho Yogaterapia, crendo-se que tenha surgido do encontro da Índia com o Ocidente e posterior proliferação do Yoga nos Estados Unidos e Europa, a partir da metade do século passado.
Como quase tudo no Yoga histórico e actual, a definição de Yogaterapia depende da escola, seita ou sub-cultura em que se enquadra. Não existem por isso uma definição ou formalização unânimes. Resultado da globalização e hibridização cultural do Yoga, numa economia de mercado onde tanta receita gera, é comum encontrarmos inúmeras interpretações daquilo que será a Yogaterapia. A despeito dessa realidade, seria um tremendo “próximo passo” uniformizar tanto quanto possível um conceito e estrutura formal daquilo que será a Yogaterapia, naturalmente enquadrada na ideia de Yoga enquanto Ciência Contemplativa e procurando validação Cientifica Experimental na medida do possível e do sensato.
Por enquanto, poderíamos dizer que genericamente a Yogaterapia, lança mão de uma série de técnicas terapeuticamente enquadradas como: dieta; ética; disciplina; exercício físico e alinhamento postural; gestos diafragmáticos; respiração condicionada; concentração e meditação. Todas estes “instrumentos terapêuticos”, ocorrem fundamentados por um corpo teórico que deriva de experiência contemplativa, subjectiva, e tem sido transmitido por tradição oral e escrita. Portanto, até ver, a maioria não se compadece com um enquadramento cientifica objectivo – contrariando o que o mainstream frequentemente preconiza.
Se nos inspirarmos em Stobbaerts, autor de Reflexão sobre o Yoga, e considerarmos dois níveis de prática de Yoga, um inicial com valência terapêutica e outro posterior com valência soteriológica, então a Yogaterapia corresponderia a esse primeiro nível. Seria então o conjunto de premissas teóricas e práticas específicas, das quais se lançaria mão para agir terapeuticamente sobre o indivíduo. Lembremos que a palavra “terapia” vem do Latim, therapīa, por sua vez trazido do Grego Clássico, therapeia, todas remetendo para a ideia de “curar”, “sarar”, ou as acções de "prestar cuidados médicos” e “tratar determinada doença”. Neste enquadramento o Yoga teria a função de lidar com o mauestar ou dor, física e psicologicamente. Seria uma acção terapêutica mundana para, em seguida e eventualmente, abordar como “terapia” existencial.
Esta visão parece-nos fazer sentido na medida em que actualmente estaremos demasiado entupidos para entráramos a eito no Yoga soteriológico, sendo a Yogaterapia quase um pré-requisito. É frequente carregarmos tantos e tão densos detritos físicos e psicológicos, que só fara sentido entrar em caminhos mais profundos do Yoga depois de limpar minimente a casa. Com efeito, determinadas técnicas do Yoga nem sequer devem ser empregues se não houver essa preparação prévia, sobe risco de serem mais lesivas do que benéficas.
Do mesmo modo, também devem ser respeitados aqueles que pretendem enveredar pelo Yoga sem que queiram abordar questões metafisica sou existências, procurando “apenas” o bem-estar que a prática lhes possa trazer. Sendo irrelevante se fica aquém, na medida em que interessa salvaguardar o respeito próprio. Sem pressas ou indulgências, cada qual com seu caminho e a seu tempo. É por esta razão que muitos professores e terapeutas do Yoga, preconizam a sua prática em íntima associação ao Āyurveda, a medicina tradicional indiana, não enveredando tanto pelas “filosofias” e metafisicas”. A verdade, parece, é que normalmente uma porta abre para a outra…
Em
suma, diríamos que o tema da Yogaterapia é de todo interessante e merecedor de uma
atenção de Contemplativos e Cientistas. Pois, concatenando o melhor de cada área
de conhecimento, de modo honesto e sistematizado, poderia construir-se como um
sistema terapêutico assaz válido para os dias de hoje e futuro.
Joel Machado
(Postura Invertida executada com pendor terapêutico | Foto/Créditos: Joel Machado)
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quinta-feira, 6 de agosto de 2020
Editorial (Artigos Académicos)
Esta secção inclui artigos que, não tendo sido publicados em algum tipo de revista científica, foram redigidos seguindo premissas académicas.
Almejando a objectividade possível, visam abordar o fenómeno de Yoga no enquadramento da investigação científica a que tem sido sujeito, sobretudo nos domínios da Filosofia, Antropologia, etnografia e Psicologia.
Perfilam artigos de investigação bem como de revisão de literatura, devidamente consubstanciadas e referenciadas.
Joel Machado
(Estudando... | Foto/Créditos: Joel Machado)
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